Pesquisa liderada pela Universidade Federal do Piauí cria arcabouço nanofibroso semelhante à matriz extracelular natural e aponta segurança em testes in vivo

Pesquisadora do BioMatLab, Conceição de Maria Vaz Elias - corresponsável pelo desenvolvimento do nanobiomaterial
Um grupo de pesquisadores do Universidade Federal do Piauí (UFPI) desenvolveu um nanobiomaterial capaz de atuar como suporte para regeneração de tecido ósseo, com potencial aplicação em fraturas e defeitos de grande extensão. O estudo, conduzido no Bioinspired Materials Laboratory (BioMatLab), descreve a criação de um arcabouço nanofibroso que imita a matriz extracelular natural, favorecendo a adesão e a diferenciação celular.
A pesquisa foi coordenada pelos professores Anderson de Oliveira Lobo e Fernanda Marciano, em parceria com cientistas da Universidade Estadual do Piauí e da UniBrasil. Segundo os dados apresentados, o material demonstrou segurança em testes in vivo e não apresentou efeitos genotóxicos, mesmo sob exposição aguda e crônica.
Desafio global
Dados citados no estudo indicam que, em todo o mundo, cerca de 2,2 milhões de pacientes são hospitalizados anualmente para procedimentos de enxerto ósseo. Doenças e lesões relacionadas às estruturas ósseas figuram entre os principais desafios da engenharia de tecidos e da medicina regenerativa.
Embora o osso possua capacidade natural de regeneração, defeitos extensos podem não se recompor completamente. Nesses casos, o processo biológico pode levar anos, expondo o paciente a riscos e limitações funcionais.
“O objetivo da nossa pesquisa era criar uma ‘prótese’ ao tecido ósseo por meio de biomateriais inteligentes que fortalecessem o processo de regeneração”, afirma a pesquisadora Conceição de Maria Vaz Elias, do BioMatLab.
Como funciona o material
O biomaterial foi produzido por meio da técnica de electrospinning (eletrofiação), reconhecida pela fabricação de fibras em escala nanométrica. A equipe preparou uma solução composta por poli(butileno adipato-co-tereftalato) (PBAT), um polímero biodegradável, associada ao polipirrol (PPy), polímero condutor, com posterior eletrodeposição de nanohidroxiapatita (nHAp).
Segundo a pesquisadora do BioMatLab, Conceição de Maria Vaz Elias a estrutura final, descrita como semelhante a uma “veda rosca”, cria um scaffold — ou arcabouço — eletricamente condutivo, capaz de sustentar a adesão celular e estimular a proliferação e diferenciação de osteoblastos, células responsáveis pela formação do tecido ósseo.
Testes de fosfatase alcalina indicaram boa diferenciação celular. “Os resultados mostram que o nanobiomaterial apresenta grande potencial como suporte para o crescimento ósseo”, diz Conceição Vaz.

Segurança avaliada em animais
A avaliação in vivo foi realizada inicialmente em ratos para verificar possíveis efeitos genotóxicos. De acordo com os pesquisadores, houve diferença significativa apenas em relação ao controle positivo (p<0,05), enquanto não se observaram diferenças frente ao controle negativo.
Isso indica que, mesmo na dosagem máxima testada e sob exposição aguda e crônica, o composto não apresentou efeitos genotóxicos detectáveis nos animais.
Impacto e perspectivas
Especialistas apontam que biomateriais com características próximas à matriz extracelular natural tendem a apresentar maior biocompatibilidade e melhor integração ao tecido hospedeiro. O uso de nanohidroxiapatita, por sua semelhança química com o componente mineral do osso, amplia as chances de sucesso clínico.
Para os pesquisadores, o próximo passo envolve o aprofundamento dos estudos pré-clínicos e, futuramente, a validação em ensaios clínicos controlados. Caso confirmada a eficácia em humanos, a tecnologia poderá reduzir o tempo de recuperação, minimizar complicações e ampliar as alternativas ao enxerto ósseo tradicional.
Em um cenário de envelhecimento populacional e aumento de traumas ortopédicos, avanços na medicina regenerativa são vistos como estratégicos para os sistemas de saúde. A iniciativa da UFPI coloca o Piauí no mapa das pesquisas de ponta em biomateriais aplicados à reconstrução óssea.